"Perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando". Clarice Lispector

domingo, 2 de maio de 2010

Quem é Alice?

Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, EUA, 2010)


Dirigido por Tim Burton, com roteiro de Linda Woolverton, baseado no livro de Lewis Carroll. Com: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Anne Hathaway, Helena Bonham Carter, Matt Lucas, Crispin Glover, Marton Csokas, e as vozes de: Alan Rickman, Christopher Lee, Stephen Fry, Timothy Spall, Michael Sheen, Barbara Windsor, Michael Gough e Imelda Staunton.

“Quem é você”? Pergunta dirigida à Alice é o fio condutor do excelente “Alice no País das Maravilhas”. Sim, é a Alice de Lewis Carroll, o mestre do nonsense que nos brindou com uma história realmente maravilhosa, mas ela é vista pelo olhar de Tim Burton, o cineasta que consegue enxergar o mundo com estranhamento, tornando as coisas mais banais, incríveis. Foi um feliz encontro!

Fugindo de um noivado arranjado e das imposições da sociedade de sua época, Alice segue novamente o Coelho Branco e cai no mundo subterrâneo – O 3D realmente deu a sensação de nos transportar para o País das Maravilhas. Caímos no buraco junto com Alice! – dominado pela terrível Rainha Vermelha que não se cansa de ordenar: “Cortem-lhe a cabeça”. Lá descobre que deverá derrotar o temível Jaguadarte[1] a fim de restabelecer o reinado da querida Rainha Branca. No fantástico País das Maravilhas ela reencontra o encantador Gato de Cheshire, os gêmeos Tweedledee e Tweedledum, a enlouquecida Lebre de Março, o Chapeleiro Maluco... mas senti falta do mestre Humpty Dumpty!

A heroína original era uma menina de 10 anos, inspirada em Alice Liddell, por quem Carroll nutria grande afeição. No filme, Alice não é mais criança – a personagem tem 19 anos – mas seu principal conflito ainda é o da identidade. Diante da pergunta da Lagarta Absolem: “Quem é você”, ela responde simplesmente: “Alice”. Ao contrário da menina que dizia não saber ao certo, uma vez que tinha mudado muito desde a queda no País das Maravilhas. Mais velha, mostra uma faceta frágil e impotente, pois havia se esquecido como era ser Alice, com sua grandiosidade e impetuosidade.

Alice tem sonhos recorrentes com o País das Maravilhas, angustia-se e teme enlouquecer. Pergunta ao pai se está ficando louca e ele responde: “Sim, você está louca. Mas vou te contar um segredo. As melhores pessoas são”. São eles que denunciam o absurdo da vida. Se no livro, o Chapeleiro afirma com satisfação que lá, no País das Maravilhas, todos são loucos, aqui ele pergunta com pesar se está enlouquecendo, ao que a jovem afirma da mesma forma que seu pai um dia lhe respondeu, sem temer, pois ela acredita que as melhores pessoas são os loucos.

É de arrepiar quando o Chapeleiro declama o poema Jaguadarte de Lewis Carroll: “Era briluz. As lesmolisas touvas roldavam e reviam nos gramilvos. Estavam mimsicais as pintalouvas, E os momirratos davam grilvos”. Ele fala a Alice que é sobre ela, conta a história de seu triunfo sobre o temível Jaguadarte. Alice resiste, diz que não matará, está confusa sobre quem é de verdade. Ora se sente pequena, impotente, acreditando que não conseguirá acabar com o mostro, Ora se sente grande e acredita em coisa impossíveis. O Chapeleiro não a reconhece mais, afirma que a menina Alice de antes era grandiosa.

A questão é: “Quem é você?”, como deixa bem claro a Lagarta para Alice. A jovem encontra a si mesma no underground, como canta Avril Lavigne na música tema da personagem. Esta questão faz Alice pensar e é só quando ela consegue assumir sua responsabilidade como sujeito que consegue finalmente enfrentar o terrível Jaguadarte, cortando-lhe a cabeça. Com o passar do tempo, vemos Alice realmente crescer, tornar-se mais corajosa e determinada. Aqui já não é a menina que pergunta assustada para o Gato de Cheshire: “Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?” Ela afirma sua posição de sujeito: “Eu crio o caminho!” A transformação porque passa Absolem, de lagarta a borboleta, é um belo espelho das mudanças atravessadas por Alice. Ao vê-lo no casulo, prestes a se transformar em borboleta, a jovem consegue recuperar a Alice perdida, nomeando-se Alice Kingsley. Ela aprende que é preciso acreditar em coisas impossíveis, pois só assim elas se tornam possíveis e assim consegue cumprir sua missão.

“Por que um corvo se parece com uma escrivaninha?” é o enigma proposto pelo Chapeleiro Maluco à Alice, mas o maior de todos é “Quem é Alice?” Talvez nunca respondamos a essa pergunta, mesmo porque qualquer resposta não daria conta do enigma insolúvel existencial de cada sujeito.

[1] Tradução de Jabberwacky de Lewis Carroll por Augusto de Campos.

domingo, 24 de janeiro de 2010

À procura de um lugar no desejo do outro

A menina no País das Maravilhas (Phoebe in Wonderland, EUA, 2008) 


Dirigido e escrito por Daniel Barnz. Com Felicity Huffman, Elle Fanning, Patricia Clarkson, Bill Pullman, Bailee Madison, Campbell Scott, Ian Colletti, Caitlin Sanchez, Mackenzie Milone, Austin Williams.

Enquanto a Alice de Tim Burton não chega, falemos do lindo filme sobre uma menina que encontra na personagem Alice de Lewis Carroll um lugar no desejo da mãe. Logo no início do filme, vemos a festa de aniversário de Phoebe e seu encantamento diante de uma maquete do País das Maravilhas, presente de seus pais. Sua mãe havia escolhido Alice no País das Maravilhas como tema para escrever um livro, a partir de sua Dissertação, mas não consegue terminá-lo. Em seguida, acompanhamos os desaniversários da menina.

A entrada em cena da professora de teatro é no mínimo, instigante. Ela faz sua irrupção declamando um dos mais belos exemplos do nonsense carrolliano Jabberwocky: “´Twas brillig, and the slithy toves / Did gyre and gimble in the wable: / All mimsy were the borogoves, / And the mome raths outgrabe”[1]. As crianças ficam mesmerizadas! Quando Alice escuta isso, relutantemente acha difícil de entender, mas afirma que este poema encheu sua cabeça de idéias. O mesmo aconteceu com Phoebe! A professora, com o poema, conseguiu imprimir na aluna um certo estranhamento. Phoebe inscreve-se para atuar na peça “Alice no País das Maravilhas”, pois acredita que sua mãe ficaria feliz por ela incorporar Alice e assim seria mais amada por ela.

A professora de teatro não diz aos alunos o que eles devem fazer, pede a eles que digam. Embora saiba como fazer, ela não disse aos alunos como fazer, repetindo, da mesma forma que um cozinheiro, os ingredientes de uma receita de bolo. Ela não se colocou como modelo, ao contrário, permitiu que os alunos se colocassem como sujeitos responsáveis pelo processo que passavam, transmitindo-lhes confiança.
Encontrar uma brecha onde seja possível dar um lugar para se encontrar. Após lutar contra suas resistências, Phoebe escolhe ser Alice e faz o teste para esse papel de maneira primorosa (Elle Fanning consegue passar no difícil teste e nos passar o peso da sensibilidade daqueles que são tocados pelo estranho, construíndo uma doce Alice). Ela carrega as palavras com muita intensidade, deixando-nos perceber que não se trata de pura encenação, por exemplo quando inicia a peça: “Como as coisas estão estranhas hoje. Deixe-me pensar. Eu era a mesma quando acordei de manhã? Tenho a impressão de ter me sentido um pouco diferente. Mas, se não sou a mesma, a próxima pergunta é, quem sou eu?” Eis sua interrogação existencial!

Phoebe se sentia como Alice no País das Maravilhas, completamente perdida, sem controle sobre seu corpo – o qual, lhe obrigava a movimentos involuntários, como lavar várias vezes as mãos – ou sua fala, levando-lhe a repetir frases e palavras que escutava, sem conseguir parar. Mas, eis que surge o Gato! A professora representa este papel para a menina. Uma das passagens mais incríveis dessa obra é quando Alice, ao saber que o Chapeleiro e a Lebre de Março são loucos, diz para o Gato que não quer se meter com gente louca. Ao que o Gato responde: “Oh, é inevitável! Somos todos loucos aqui. Eu sou louco. Você é louca”. É como se o Gato autorizasse Alice a também ser louca como os habitantes do País das Maravilhas e assim a menina pudesse continuar caminhando, sentindo-se menos estranha naquele lugar, ao dar-se conta de que ela também tinha um lado “maluco”. Na peça, Phoebe se sente menos diferente das outras crianças, pois pôde perceber que não havia nada nela que não fizesse parte do humano e assim como Alice começou a encarar uma dolorosa e comovente jornada como sujeito, que não é efeito da biologia, mas sim afetado pelos significantes que o cercam. E assim Phoebe continuou caminhando.

[1] “Solumbrava, e os lubriciosos touvos / Em vertigiros persondavam as verdentes; / Trisciturnos calavam-se os gaiolouvos / E os porverdidos estriguilavam fientes”. Fonte: CARROL, Lewis. Alice: Edição Comentada. Ilustrações originais, John Tenniel; introdução e notas, Martin Gardner; tradução, Maria Luiza Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Falando em ‘perdidos’ não dá para não falar de "Lost"

Preparação para o início do fim...





Há cinco anos ia ao ar uma série televisiva absolutamente singular, daquelas que poderão um dia nos fazer dizer para as próximas gerações: no início desse milênio, uns caras escreveram aquela que seria a melhor série de todos os tempos! Estou falando de Lost, série criada em 2004 por Jeffrey Lieber, J. J. Abrams e Damon Lindelof, que conta a história dos sobreviventes do vôo 815 da Oceanic Air em uma ilha do Pacífico. Os personagens encontram-se perdidos, condição necessária para encontrar a si mesmo. A série é centrada na jornada de cada um dos losties – os sobreviventes que se perderam na ilha – e nas relações estabelecidas com os nativos desse lugar, chamados de 'Outros', em referência a famosa frase de J. P. Sartre: "l’enfer, c’est les autres[1]".

Estou certa de que cada fã desta série terá um motivo para amá-la ou até mesmo odiá-la. Se para uns, seus mistérios são o ponto forte: o “monstro” representado pela fumaça preta, os “Outros”, os “números maus”, a razão da queda do avião com a sobrevivência de vários passageiros e as viagens no tempo. Para outros, é o que faz com que se afastem, achando “sem pé nem cabeça” ou “muito cabeça”. Mas não é isso que me faz escrever aqui! O que me toca é a relação estabelecida entre cada personagem – sua vida passada (mostrada através de flashback), o presente na ilha e o futuro (que aparece nos flashforward) – e os eventos decorrentes da convivência com os demais personagens. Cada fio vivido do tempo compõe uma intrincada peça determinante para as escolhas de cada um deles.

Se a princípio parecia que o objetivo almejado pelos losties era voltar para casa, quando isso ocorreu vimos o contrário da idéia de Dorothy de que não há lugar como o nosso lar, porque mais do que sair da ilha, encontrando uma saída de volta para a casa, interessa ficar e sustentar estar nesse lugar que os colocam diante do encontro com algo do qual eles não podem fugir: eles próprios. Só assim podem realizar a travessia de volta para casa. Lost caminha para sua última temporada e o embate entre destino e livre arbítrio coloca mais uma vez o sujeito no centro da questão, mais do que isso, coloca o próprio telespectador para questionar a série e também se colocar nessa berlinda. Isso não é pouco para uma série de televisão! Faço algo porque sou destinado a fazer ou escolho isso? De um lado, a luz representada por Jacob e sua aposta de que o homem é livre para fazer suas escolhas e de outro, no lado negro, seu irmão que acredita no destino e que o homem é essencialmente mau. Quem vencerá? Resta aguardar pelo grand finale!

[1] “o inferno são os outros”.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Durante e depois da vida...

Depois da vida (Wandafuru Raifu, Japão, 1998)

Escrito e dirigido por Hirokazu Kore-eda. Com: Arata, Erika Oda, Susumu Terajima, Takashi Naito, Kei Tani, Toru Yuri, Hisako Hara, Akio Yokoyama, Kazuko Shirakawa, Yusuke Iseya, Sayaka Yoshino, Kyoko Kagawa.

E se você, caro leitor, tivesse que escolher uma única recordação, a mais marcante de sua vida, aquela que você levaria por toda a eternidade? Esse é o mote do incrível “Depois da Vida”, do japonês Kore-eda. É um belo filme que trata da jornada pela qual todos os seres humanos passam – nascer, crescer e morrer – indo mais além disso, apresentando o que acontece depois que a vida termina. Numa espécie de "repartição pública", algumas pessoas trabalham, sendo este trabalho algo como uma preparação para aqueles que acabaram de morrer. Os mortos são informados de que precisam escolher uma recordação sua, uma lembrança de algo que tenha sido bastante significativo, para eternizá-la. Eles têm um tempo limite, três dias, findo os quais, os "funcionários da repartição” farão o melhor possível para recriar esse momento em um filme, ressalvando que este filme pode não combinar exatamente com a lembrança, por isso deve ser usado apenas como referência, uma maneira de voltar ao passado. Com ele, os mortos seguirão adiante, levando somente essa lembrança eternizada num filme. Poética evocação do papel do cinema para as pessoas, funcionando como máquina para sonhar.
Acontece de tudo, há pessoas que não tem o menor problema em escolher uma lembrança, há aquelas que ficam em dúvida, há ainda, as que se recusam a escolher. Vemos uma jovem, como muitas adolescentes, a princípio escolher sua viagem à Disneylândia, mas depois pôde se lembrar do cheiro e da maciez do colo de sua mãe, eternizando este momento em que se sentia tão amada. Observamos também um ex-piloto que quis simplesmente recriar seus momentos de aviador, quando as asas de seu avião recortavam as nuvens que lhe pareciam tufos de algodão doce. Entre aqueles que se negam a escolher um momento está o jovem de 21 anos Iseya. Primeiro, ele se recusa, depois escolhe um sonho, do tipo que sonhamos ao dormir. Em seguida, desiste por não achar tão importante. Também, porque ele fora informado de que não pode escolher algo do futuro, como um sonho, deve escolher algo do passado. Ele questiona, afirma que são apenas lembranças. No fim de tudo, diz ele, acabamos por transformar as lembranças nas nossas próprias imagens, como se fizéssemos um filme e isso que se cria parece mais real do que qualquer lembrança. Isso, segundo Iseya, é muito mais do que olhar para trás, por isso, esse negócio de olhar para o passado, de viver um só momento desse passado seria muito doloroso. Para o jovem, não se trata de não poder escolher um momento, mas sim que ele não quer escolher e ao fazer isso, sente-se assumindo a responsabilidade por sua vida. De qualquer forma, recusar-se a escolher também é uma escolha! Shiori também se recusa, porque terá que esquecer tudo que passou na “repartição”, onde descobre que fez parte da felicidade de alguém e não suportaria ser esquecida novamente. Ela conta que só conseguiu entender isto pelo tempo que passou ali, naquele local, com aquelas pessoas que lhe acolheram e das quais ela não quer esquecer.
É interessante notar que ao se lembrar de um momento e fazer um filme sobre isso, eles estão realmente criando suas lembranças, não o que realmente aconteceu de fato, mas o que marcou subjetivamente o sujeito em cada uma delas. Aqueles que não puderam escolher ficam trabalhando na “repartição”, são os responsáveis por receber os recém-mortos. Ironicamente, terão o trabalho de fazê-los se lembrar de um momento de suas vidas. E se durante a vida você seguisse levando apenas uma lembrança marcante? Em muitos casos, a vida já é pontuada por um único momento do qual não se consegue sair, como canta Bono Vox na bela Stuck in a moment You can't get out of: “You've got stuck in a moment and you can't get out of it”[1]. Cada sujeito tem uma cena marcante que irá moldar sua vida, mas é um problema quando ela se torna fixa demais, aprisionando-o. Uma possível saída de tal prisão é aquela relacionada à criação, assumindo a responsabilidade por suas escolhas e assim tornando-se capaz de recriar a cena, não totalmente, mas a alteração de um único detalhe já é capaz de mudar todo o jogo de cena, necessário para seguir em frente.

[1] "Você ficou presa a um momento e não consegue sair dele".

sábado, 2 de janeiro de 2010

Luis Inácio, o filho de D. Lindu

Lula, o filho do Brasil (Lula, o filho do Brasil, BR, 2010)

Dirigido por Fábio Barreto. Roteiro de: Denise Paraná, Fábio Barreto, Daniel Tendler, Fernando Bonassi. Com: Rui Ricardo Diaz, Guilherme Tortólio, Felipe Falanga, Glória Pires, Lucélia Santos, Cléo Pires, Juliana Baroni, Milhem Cortaz.

“Mãe, o que é cair no mundo”? – pergunta o menino Luís à sua mãe, D. Lindu – logo no início do filme, intrigado pelo motivo do pai não estar junto com sua família, pois disseram que ele tinha 'caído no mundo'. O significado de uma palavra não cabe na explicação que alguém pode dar. O sentido é único para cada um! Sim, há um senso comum, porém é quando você o tira da massa disforme e o engendra na singularidade da sua vida que algo da ordem da criação poderá advir. Ano novo e nada melhor do que começar o primeiro dia do ano no cinema, lugar onde o novo se reflete em criação. Novas possibilidades através do que vemos na projeção do filme quando nos colocamos nos lugar das personagens. Nesta encenação imaginária você pode ser quem quiser!
Lula nos é apresentado através de sua mãe D. Lindu que o chama de Luís Inácio. Na aridez do nordeste nasce aquele que viria a ser presidente do Brasil. Para chegar até aí, dois significantes, entre outras coisas, foram importantes: teime e trabalhador. O primeiro, imperativo afirmativo do verbo “teimar”, segundo o Aurélio, tem a ver com ‘insistir, obstinar-se’. Na maioria das vezes esta palavra só é lembrada no sentido da teimosia, de uma obstinação exagerada, mas quem teima, persevera e a pertinácia é necessária para se conquistar um objetivo. D. Lindu, mulher forte e doce, é quem imprime no filho – através do dito: “Teime, meu filho, teime!” – a capacidade de perseverança, de não desistir facilmente daquilo que se quer. “Se você sabe o que tem que fazer, vá lá e faça, mas se não der, espera. Paciência...” é um dos conselhos dados por essa mãe. Ela sabia muito bem o que era isso e demonstrou em ato ao se separar do marido Aristides, com quem levava uma vida miserável. Ela entrava em choque com esse homem, pois este se valia da violência, enquanto aquela mulher acreditava no diálogo. Era analfabeta, nunca havia estudado, mas tinha uma relação muito forte com o saber. Aí residia sua força! Desejava que os filhos estudassem e ficou muito feliz ao ver o filho ser diplomado pelo SENAI. A mãe, mais do que justo, Lula dedicou o diploma de Presidente do Brasil.
O segundo significante, “trabalhador”, é vociferado pelo pai: “Filho meu não tem que estudar, tem que trabalhar... ser trabalhador”. Um pai agressivo e sofrido que deixou uma herança para o filho, segundo o próprio: “da minha mãe, eu herdei a bondade e do meu pai, eu fiquei com a maldade”. Trabalhador, identificado a este significante, Lula se torna presidente do Sindicato dos Metalúrgicos e, posteriormente, presidente do Partido dos Trabalhadores. O pai colocava ‘trabalhar’ e ‘estudar’ em lados opostos, como se fosse impossível sua união e de certa forma, foi. Infelizmente! Mas era preciso trabalhar a dor, trabalhaDor.
Ao final, é relatada a vida do homem público. Depois de três tentativas à presidência da República, Lula é eleito e reeleito presidente do Brasil, torna-se figura de destaque no cenário mundial e é escolhido pelo jornal francês Le Monde[1] como “personalidade do ano 2009”: “Pareceu-nos que, pelo seu percurso singular de antigo sindicalista, pelo seu sucesso à frente de um país tão complexo quanto o Brasil, por sua preocupação com o desenvolvimento econômico, a luta contra as desigualdades e a defesa do meio ambiente, Lula é bastante merecedor... do mundo”. E assim Luís Inácio Lula da Silva caiu no mundo!

[1] Edição de 24/12/2009.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Sede de vida

Na Natureza Selvagem (Into the Wild, EUA, 2007)
Dirigido por Sean Penn que também assinou o roteiro. Com: Emile Hirsch, Catherine Keener, Jena Malone, Vince Vaughn, Hal Holbrook, Kristen Stewart, Brian Dierker, William Hurt, Marcia Gay Harden.

Conheci a história real de Christopher McCandless através do livro Na Natureza Selvagem que deu origem ao filme de mesmo nome. Fiquei encantada por aquele jovem! Isso foi em 1997 e na época pensei que, se fosse cineasta, filmaria essa história. Dez anos depois, eis que Sean Penn, com delicadeza e sensibilidade, a leva para as telas do cinema. Chris, como era chamado por seus familiares, abandona seu nome e a vida confortável e segura da classe média americana, após ter terminado a faculdade, e segue em busca de um sonho: atravessar a natureza selvagem. É a jornada do herói!
A emocionante trilha sonora e as belas imagens do Alasca dão ainda mais vida a uma história cujo fim mortífero só ratifica o cruzamento íntimo entre vida e morte, já que ele encontrou a morte, mas estava em busca da vida, querendo chegar, como James Joyce (um de seus heróis literários), “perto do coração selvagem da vida”. Na contingência de um encontro ele é capaz de afetar e ser afetado pelas pessoas que descobre em seu caminho. Embora esteja só no meio de muitos, é necessário se afastar, se descontaminar da forte presença do outro e ir para o desértico Alasca, para se dar conta da importância desses encontros. “Para não mais ser envenenado pela civilização, ele foge e caminha sozinho sobre a terra para perder-se na natureza”, escreve Chris – agora assumindo o codinome Alexander Supertramp (algo como "super vagabundo", o que sugere errância) – numa folha de compensado que tapava uma janela do ônibus que lhe serviu de abrigo no Alasca.
A aventura no Alasca fora inspirada em grandes escritores, especialmente Leon Tolstói, Henry David Thoreau e Jack London, que enfrentaram a natureza selvagem, sobretudo encararam sua própria ilha, ao olhar para dentro de si mesmo. Porém, para Chris, a literatura era mais do que uma simples leitura, era a própria vida, era uma espécie de “manual de sobrevivência na selva". Ele queria experimentar, no real, aquilo que lia e por isso decide realizar a grande aventura no Alasca, caminhando para dentro da natureza selvagem.
Sua jornada é marcada por vários encontros, pessoas que tiveram suas vidas transformadas por sua presença. Embora, possa parecer, à primeira vista, que o jovem queria a todo custo se livrar da civilização, especialmente das pessoas, não é isso que ocorre. Muito pelo contrário, ele demonstra ter um interesse genuíno pelas pessoas. Só não consegue chegar muito perto, quando isso acontece, ele rompe e afasta-se. Ao final do filme é tocado um trecho da bela música "Guaranteed" de Eddie Vedder que poderia ter sido cantada pelo protagonista: "Don't come closer or I'll have to go (...) Consider me a satellite, forever orbiting. I knew all the rules, but the rules did not know me”[1]. Para Chris, o laço social constituía uma experiência dolorosa. Tanto quanto àquela do famoso símile schoppenhauriano dos porcos-espinhos citado por Freud em “Psicologia de Grupo e a análise do Ego”, na qual um grupo de porcos-espinhos para não morrerem de frio se alinham. Unindo-se seus espinhos os machucavam, por isso não podiam ficar perto uns dos outros. Porém, aos se afastarem, voltavam ao problema inicial e precisavam de calor. Daí fizeram um movimento de ir e voltar até conseguir um ponto de equilíbrio necessário para conviverem.Ao final de sua jornada, o jovem escreve destacadamente: Felicidade só real quando compartilhada. Essa é a frase fica rolando durante muito tempo na cabeça do espectador que, incrédulo, vê o jovem fazer sua derradeira viagem. Há um paradoxo aí, uma vez que a felicidade para ser real exige o compartilhamento com o outro e isso causa mal-estar. Ao romper o laço social, Christopher faz uma separação em ato, total, fica sozinho na natureza selvagem do Alasca e assim como os porcos-espinhos ao se afastarem demais dos outros, também morre. Apesar de se dar conta de que precisava voltar, isto já não era mais possível. Era necessário que encontrasse uma distância intermediária, nem tão perto, nem tão longe, entre ele e as pessoas ao seu redor para poder viver de forma prazeirosa. Eis a árdua tarefa que um encontro com suas infinitas possibilidades nos coloca diariamente!
[1] “Não se aproxime ou terei que ir. (...) Considere-me um satélite, sempre orbitando. Eu conheço todas as regras, mas as regras não me conhecem”.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Humano, demasiadamente humano

Deixa ela entrar (Låt den rätte komma in, Suécia, 2008)

Dirigido por Tomas Alfredson. Roteiro de John Ajvide Lindqvist. Com: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Peter Carlberg, Per Ragnar, Karin Bergquist, Henrik Dahl.

Não, não é um filme de terror! É difícil enquadrá-lo numa categoria e talvez nem seja necessário. O problema de rotularmos um filme é que acabamos por limitá-lo a um aspecto dentro de um universo inteiro e infinito de possibilidades. Basta sabermos que se trata de arte cinematográfica da melhor qualidade. A trama se passa na Suécia, em uma região gélida que ajuda a compor um belo cenário para a relação que será estabelecida entre os jovens de 12 anos: Oskar e Eli. O menino nos é apresentado como solitário, mas será mesmo? Do ponto de vista de quem o rodeia, por exemplo, seus colegas de escola podem vê-lo assim, porém será que ele se vê ou se coloca assim? Não me parece que Oskar seja solitário, voltado totalmente para si, mas está sozinho numa sociedade que já não lembra mais o que é sentir. Sua aproximação de Eli vem comprovar que ele não é tão solitário. Entretanto, não precisa ser amigo de todo mundo, basta travar uma verdadeira relação amorosa com alguém especial, sensível como ele. Porque pessoas assim sabem o quão intenso e forte pode ser o laço que une um sujeito a outro. Oskar é vítima de bullying na escola, frágil e sensível. Enquanto Eli (que afirma não ser uma garota) é um verdadeiro enigma! Ficamos sabendo que é uma vampira, forte, determinada e corajosa. Seu encontro com Oskar irá mudar a vida dele de uma forma que só os encontros felizes podem fazer.
Em um desses encontros, na cena em que Oskar lhe pergunta se não está sentindo frio, Eli afirma que faz tempo que não sabe o que é sentir. Sentir para ela é tão insuportavelmente doloroso que o melhor é esquecer! Depois, na cena que explica o título do filme, vemos o que acontece quando ela sente algo. Uma das cenas mais belas que já vi, marcada pela doçura, delicadeza e encanto dos pequenos gestos, com um silêncio recheado de palavras não ditas. O amor para ela pode ser fatal e não sentir, uma condição necessária para se proteger, conseguindo o que necessita para sobreviver: o sangue. O vampirismo aparece aqui muito mais para nos lembrar de nossa condição humana, demasiadamente humana.
Trata-se de uma história de amor trágica! Eli condenada a uma eterna existência fria e sombria, sem poder sentir e sem conseguir suportar a luz, enquanto Oskar é tocado pela finitude e pela paixão. O garoto é extramamente sensível e, de certa forma, isso também é insuportável para ele porque o deixa muito vulnerável.
É possível que Oskar tenha o mesmo fim de Håkan - fiel escudeiro de Eli, aquele que lhe oferece o sangue de que necessita para sobreviver -, mas a efemeridade da vida não retira dela sua beleza. Sangue como símbolo da vida, o qual é bombeado através do coração para todo o corpo. Coração como metáfora do que é sentir!
Um encontro, apenas um encontro com as infinitas possibilidades que ele comporta, mesmo que dure somente um belo instante como: o pulsar do coração na cena em que vemos os jovens dormindo lado a lado, um toque delicado no corpo, ou simplesmente o som estalido da língua sugerindo "sim, eu deixo você entrar na minha vida" porque é preciso "ir e viver"!